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Tesouro IPCA+ 2029 ou 2045: como o prazo muda tudo (e o que é marcação a mercado)

Financas Pessoais·12 min de leitura·24 de abril de 2026

Mesmo título, comportamentos opostos

O Tesouro IPCA+ paga a inflação (IPCA) mais uma taxa prefixada. Em abril de 2026, essa taxa está acima de 7% ao ano em praticamente todos os vencimentos — o IPCA+ 2029 está negociado em torno de 7,5%, o IPCA+ 2032 próximo de 7,6%, o IPCA+ com juros semestrais 2045 ao redor de 7,25% e o IPCA+ 2050 em cerca de 6,98%. Patamares historicamente elevados para juros reais.

O problema é que dois títulos com o mesmo nome podem se comportar de formas completamente diferentes dependendo do prazo. O IPCA+ 2029 e o IPCA+ 2045 (este último disponível apenas com juros semestrais) são quase opostos em termos de risco e comportamento de preço. Entender por quê é o que separa quem usa o Tesouro Direto bem de quem usa mal.

O que é marcação a mercado e por que ela importa

Marcação a mercado é o processo pelo qual o valor do seu título é atualizado diariamente conforme as taxas de juros do mercado — não conforme o valor que você pagou na compra.

Na prática: se você comprou um IPCA+ 2045 travando 6,5% ao ano e, semanas depois, o mercado passa a negociar esse título a 7,5% ao ano, o preço do seu título cai. Não porque o governo deixou de pagar, mas porque ninguém vai querer pagar o mesmo preço por um título que rende menos do que o mercado oferece agora.

Isso assusta muita gente quando abre o app e vê o saldo menor do que o valor investido. Mas há um detalhe importante: se você segurar o título até o vencimento, recebe exatamente o que foi contratado — IPCA + a taxa acordada. A variação da marcação a mercado só se realiza como perda (ou ganho) se você vender antes do vencimento.

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Por que o prazo muda tudo no Tesouro IPCA+

Quanto mais longo o vencimento, maior é a sensibilidade do preço do título às variações nas taxas de juros do mercado.

Em abril de 2026:

  • IPCA+ 2029: vencimento em 15/05/2029, portanto cerca de 3 anos pela frente.
  • IPCA+ com juros semestrais 2045: vencimento em 2045, cerca de 19 anos pela frente.

Se a taxa de juros real do mercado sobe 1 ponto percentual, o impacto no preço do título de 2029 é bem menor do que no de 2045. Em finanças isso tem um nome: duration — medida de quanto tempo leva, em média, para o investidor recuperar o valor investido via fluxos de caixa. Quanto maior a duration, maior a oscilação de preço para cada variação de taxa.

Exemplo concreto que já aconteceu: entre 2020 e o início de 2025, os títulos IPCA+ de longo prazo acumularam quedas de marcação a mercado próximas de 25% em alguns momentos, enquanto os de prazo curto oscilaram perto de zero. Esses números invertem quando a curva se move para baixo — se as taxas caem, os títulos longos sobem muito mais do que os curtos.

Isso não é bom nem ruim em si. É uma característica do título que muda o perfil de risco de forma significativa.

IPCA+ 2029: características e contextos em que costuma ser usado

O IPCA+ 2029 é um título de médio prazo. Com vencimento próximo, sofre menos com as oscilações de taxa e é mais previsível em termos de valor presente.

Características observáveis:

  • Menor volatilidade de preço no curto prazo: quem não quer ver oscilações fortes no saldo tende a preferir esse perfil.
  • Proteção contra inflação conhecida até o vencimento: IPCA + taxa contratada, sem surpresas para quem carrega até o fim.
  • Horizonte compatível com metas de médio prazo: reformas, entrada de imóvel, faculdade dos filhos em poucos anos.
  • Menos exposição a riscos políticos e fiscais de longo prazo: o Brasil em 3 anos é mais previsível, em termos de apreçamento de risco, do que o Brasil em 20 anos.

A taxa negociada em abril/2026 está em torno de IPCA + 7,5% ao ano. Se a inflação ficar em 4,5% ao ano no período, o rendimento bruto total seria de aproximadamente 12% ao ano — antes do IR.

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IPCA+ 2045 (com juros semestrais): características e contextos em que costuma ser usado

O IPCA+ 2045 está disponível apenas na versão com juros semestrais — ou seja, paga cupons a cada seis meses e o principal apenas no vencimento. Isso influencia tanto a duration (um pouco menor do que seria sem cupons) quanto o fluxo de caixa do investidor.

Características observáveis:

  • Alta volatilidade de preço no curto e médio prazo: para quem acompanha o saldo com frequência, pode ser desconcertante.
  • Maior potencial de ganho (e de perda) por marcação a mercado: se as taxas caem, o preço sobe muito mais do que num título curto; se sobem, cai muito mais.
  • Fluxo de renda semestral: os cupons caem na conta da corretora a cada seis meses, o que pode fazer sentido para quem quer renda periódica, ou complicar o reinvestimento para quem está na fase de acumulação.
  • Horizonte de investimento longo: quem pode precisar do dinheiro antes do vencimento precisa considerar o risco de sair em momento desfavorável.

É um título usado historicamente por investidores institucionais — fundos de pensão, seguradoras — porque eles têm passivos de longo prazo para casar com ativos de longo prazo. Para investidor individual, o uso costuma ser discutido no contexto de planejamento de muito longo prazo ou como uma posição dentro de uma carteira diversificada.

A armadilha da taxa mais alta

Um raciocínio comum (e enganoso): olhar para o IPCA+ 2045 com 7,25% e o IPCA+ 2029 com 7,5% — já houve momentos em que o título curto pagou mais que o longo, o que virou a intuição de ponta-cabeça. Às vezes o longo paga mais, às vezes o curto paga mais, dependendo da inclinação da curva de juros.

Quando o longo paga mais que o curto, a diferença não é um brinde: é compensação pelo risco adicional de prazo. Quando o longo paga menos que o curto (curva invertida, como vista em vários momentos recentes), o mercado está precificando expectativa de queda futura de juros.

A taxa de um título, sozinha, não diz se ele é "melhor" ou "pior". Ela é o preço que o mercado está cobrando pelo conjunto de riscos e prazos envolvidos.

IR, taxas e liquidez: os custos que nenhum título escapa

Imposto de Renda (tabela regressiva):

  • Até 180 dias: 22,5%
  • De 181 a 360 dias: 20%
  • De 361 a 720 dias: 17,5%
  • Acima de 720 dias: 15%

O IR incide apenas sobre o rendimento, não sobre o principal investido.

Taxa de custódia da B3: 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos custodiados, exceto:

  • Tesouro Selic: isento até R$ 10.000 investidos; acima disso, 0,20% a.a. apenas sobre o que ultrapassar.
  • Tesouro Renda+: isento para quem mantém o título até o vencimento e recebe renda mensal de até seis salários mínimos.

Desde 2024, a taxa deixou de ser cobrada semestralmente em lote e passou a ser cobrada de forma fracionada, conforme o período de custódia efetivo — reduzindo o efeito do caixa saindo em bloco duas vezes por ano.

Liquidez diária: o Tesouro Nacional recompra os títulos todos os dias úteis. Mas "liquidez" aqui não significa "sem risco de preço". Vender o IPCA+ 2045 antes do vencimento num momento de alta de juros pode significar receber menos do que o valor investido, mesmo após descontar o IR.

O IPCA+ 2029, com menos anos pela frente, tem margem de segurança maior para quem precisar sair antes — mas ainda não é zero.

Tesouro Renda+: uma alternativa para o público de aposentadoria

Vale mencionar um produto do próprio Tesouro Direto lançado em 2023 e voltado para quem usaria o IPCA+ 2045 como complemento de aposentadoria: o Tesouro Renda+. Ele é um título IPCA+ que, no vencimento, em vez de devolver o principal + juros de uma vez, paga 240 parcelas mensais corrigidas pela inflação (20 anos de renda).

Vantagens estruturais para quem quer renda futura:

  • Isenção da taxa de custódia da B3 se o título for mantido até o vencimento e a renda mensal não ultrapassar seis salários mínimos.
  • Simplicidade: o Tesouro Nacional já calcula as parcelas para entregar fluxo mensal.
  • Começa a partir de valores pequenos (fração de 1% do título).

Desvantagens a considerar:

  • Duração finita (20 anos), sem vitaliciedade — ao contrário de um plano de previdência com renda vitalícia.
  • Resgate antecipado tem taxa de custódia regressiva: 0,50% a.a. até 10 anos, 0,20% a.a. entre 10 e 20 anos, 0,10% a.a. acima de 20 anos.
  • IR regressivo padrão do Tesouro Direto (mínimo de 15% após 720 dias).

Não é o mesmo produto que o IPCA+ 2045, mas atende parcialmente o mesmo objetivo — com estrutura pensada para entrega de fluxo na fase da aposentadoria.

Perguntas que ajudam a pensar na escolha

No lugar de uma recomendação — que depende de dados pessoais que um artigo não tem acesso — duas perguntas orientam a análise:

1. Quando esse dinheiro pode ser necessário? Se a resposta for "em até 3 a 5 anos", o IPCA+ 2029 tem prazo mais compatível. Se for "só em 15 a 20+ anos", o IPCA+ 2045 ou o Tesouro Renda+ podem ser considerados — desde que haja clareza sobre a volatilidade no caminho.

2. Qual é a tolerância a ver o saldo oscilar negativamente no curto prazo? Não é questão de coragem ou fraqueza — é prática. Quem olha o saldo todo dia e toma decisões baseado no que vê no app pode acabar vendendo em momento desfavorável. Títulos longos exigem uma certa indiferença ao preço presente.

Como a marcação a mercado pode operar nos dois sentidos

Há um uso dos títulos longos que merece ser mencionado com cuidado: alguns investidores compram IPCA+ de longo prazo justamente porque esperam que as taxas caiam, o que faria o preço do título subir no caminho. Essa operação tem nome na literatura financeira (riding the yield curve), é praticada por gestores profissionais com frequência, e explica parte dos movimentos de mercado em momentos de taxa alta.

Mas o ponto importante, do lado do investidor individual: essa é uma operação com risco de mercado relevante. As taxas podem:

  • Cair rapidamente, valorizando o preço do título — cenário favorável.
  • Subir ainda mais, aprofundando a marcação negativa — cenário desfavorável.
  • Ficar paradas por anos, o que significa carregar volatilidade sem o ganho esperado.

O investidor que compra um IPCA+ longo pensando em vender antes do vencimento aceita todos esses cenários. Quem compra para carregar até o fim ignora a marcação diária e recebe a taxa contratada, independentemente do que aconteça no caminho — mas fica com o dinheiro travado no horizonte escolhido.

Não é escolha entre "certo e errado", é escolha entre objetivos diferentes.

Perguntas frequentes sobre Tesouro IPCA+ em 2026

O que significa a sigla IPCA+ nos títulos do Tesouro? Significa que o título rende a variação do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) mais uma taxa prefixada de juros reais. Essa combinação protege o poder de compra do principal e ainda entrega juros reais acima da inflação.

Posso perder dinheiro no Tesouro IPCA+? Se você carregar até o vencimento, recebe o IPCA + taxa contratada, sem perda nominal. Se vender antes do vencimento em momento de alta de taxas, o preço recebido pode ser inferior ao valor investido — isso é a marcação a mercado.

Qual é a taxa atual do IPCA+ 2029? Em abril de 2026, está negociada em torno de IPCA + 7,5% ao ano (varia diariamente). Para ver a taxa do momento, consulte o site do Tesouro Direto.

Existe um Tesouro IPCA+ 2045 sem juros semestrais? Não. O vencimento 2045 é oferecido apenas na versão com juros semestrais, que paga cupons a cada seis meses. Os títulos IPCA+ sem juros semestrais disponíveis hoje têm outros vencimentos (2029, 2032, 2040, 2050 etc.).

Qual a taxa de custódia do Tesouro Direto em 2026? 0,20% ao ano sobre o valor custodiado. Tesouro Selic tem isenção até R$ 10.000 investidos. Tesouro Renda+ tem isenção total se carregado até o vencimento e a renda mensal ficar abaixo de seis salários mínimos.

Como funciona o IR no Tesouro IPCA+? Tabela regressiva: 22,5% (até 180 dias), 20% (181-360), 17,5% (361-720), 15% (acima de 720 dias). O imposto incide só sobre o rendimento, retido na fonte no momento da venda ou vencimento.

Tesouro IPCA+ ou Tesouro Renda+ para aposentadoria? Produtos diferentes. O IPCA+ devolve principal + juros no vencimento em parcela única; o Renda+ converte o valor acumulado em 240 parcelas mensais corrigidas pela inflação. Se o objetivo é fluxo de renda mensal já estruturado, o Renda+ costuma ser mais simples; se é flexibilidade de uso no vencimento, o IPCA+ permite mais liberdade.

O que acontece se eu precisar vender antes do vencimento? O título é vendido pelo preço de mercado do dia, que varia conforme as taxas de juros vigentes. O Tesouro Nacional garante a recompra diária, mas o preço recebido pode ser maior ou menor do que o valor investido.

Taxa de 7,5% no IPCA+ é uma boa taxa historicamente? Em termos históricos, juros reais acima de 7% ao ano estão entre os mais altos já registrados no Tesouro IPCA+ desde a criação do programa em 2002. Isso, sozinho, não diz se "é hora de comprar" — diz apenas que o prêmio de risco real atual está elevado em relação à média histórica recente.


Se você tem títulos do Tesouro em mais de uma corretora, ou quer ver num só lugar quanto da sua carteira está em cada vencimento e qual o impacto da marcação a mercado no seu patrimônio total, é isso que a Vela entrega. Conecte suas contas via Open Finance Brasil e veja o quadro completo — sem precisar abrir cinco apps diferentes pra juntar os números.


Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento. A análise de qual título do Tesouro Direto é adequado depende de objetivos, horizonte, tolerância a volatilidade e situação financeira específicos de cada investidor. Taxas de juros, inflação e preços de mercado variam diariamente — consulte sempre o site oficial do Tesouro Direto e, para decisões de investimento, um profissional certificado (CEA, CFP) ou a área de research da sua corretora.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre Tesouro IPCA+ 2029 e Tesouro IPCA+ 2045?

Ambos pagam IPCA mais uma taxa prefixada, mas o prazo muda tudo. O IPCA+ 2029 tem vencimento em cerca de 5 anos e sofre menos com oscilações de taxa de juros. O IPCA+ 2045, com mais de 20 anos de prazo, tem volatilidade de preço bem maior — pode valorizar muito se as taxas caírem, mas cai significativamente se as taxas subirem.

O que é marcação a mercado no Tesouro IPCA+?

Marcação a mercado é a atualização diária do preço do título com base nas taxas negociadas pelo mercado. Se as taxas subirem depois da compra, o preço do título cai. Se as taxas caírem, o preço sobe. Quem segura o título até o vencimento recebe exatamente o combinado na contratação — a marcação a mercado só afeta quem vende antes do prazo.

Posso perder dinheiro no Tesouro IPCA+?

Se você vender o título antes do vencimento em um momento de alta nas taxas de juros, pode receber menos do que investiu. O risco é maior no IPCA+ 2045 do que no IPCA+ 2029, justamente por causa do prazo mais longo. Levado até o vencimento, o título paga o IPCA mais a taxa contratada.

O Tesouro IPCA+ 2045 tem liquidez diária?

Sim, o Tesouro Nacional recompra os títulos todos os dias úteis. Mas liquidez diária não significa ausência de risco: vender o IPCA+ 2045 antes do vencimento pode implicar perda de capital dependendo do momento das taxas de juros.

Qual é o imposto de renda no Tesouro IPCA+?

Ambos os títulos seguem a tabela regressiva de IR: 22,5% para resgates em até 180 dias, 20% entre 181 e 360 dias, 17,5% entre 361 e 720 dias, e 15% para prazos acima de 720 dias. Aplicações de longo prazo se beneficiam da alíquota menor.

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